Simone Sancho
Founder & CEO @ Belong Be | Independent beauty brands
Existe um tipo de pessoa que adora pedir “me dá um feedback sincero”. E existe essa mesma pessoa dois minutos depois, emocionalmente esfarelada, arrependida de ter pedido qualquer coisa além de validação afetiva.
A verdade é simples e brutal: feedback é um presente. Mas só é presente quando a pessoa quer receber. Fora disso, vira agressão, vira ruído ou, pior, vira desperdício de tempo (o seu, o meu e o de toda a humanidade produtiva).
Depois de anos observando padrões emocionais, participando de reuniões onde o ego tinha mais voz que o bom senso e aprendendo com a vida real — aquela que não aparece no LinkedIn — eu cheguei à única regra possível para preservar relações e sanidade mental: feedback só funciona quando existe combinado.
Antes de tudo: em que nível você quer a sinceridade hoje? Sim, porque sinceridade tem nível de intensidade. Feedback não é um botão binário — é um dial de volume.
- Nível 1: Opinião suave, aromatizada, estilo chá de camomila.
- Nível 2: A verdade, mas com acolhimento e um cobertor emocional.
- Nível 3: A real nua, crua, objetiva — com instruções de melhoria.
Se a pessoa pede nível 3 mas tem estrutura emocional de nível -4, você não está prestando ajuda; você está assinando um boletim de ocorrência emocional.
O que NÃO é feedback (e nunca será)
Existem três categorias de pessoas que não podem estar numa conversa séria:
- A vítima do universo: Aquela que vai transformar qualquer feedback em motivo para culpar o Mercúrio Retrógrado.
- A que quer se sentir péssima, mas não pretende mudar nada: Drama sem plano de ação é entretenimento, não evolução.
- A narradora de contexto infinito: A pessoa que usa 38 minutos explicando situações para não reconhecer responsabilidades. (Se você precisa explicar tanto, já está errado.)
Como funciona o feedback adulto
O protocolo é basicamente um pacto civilizatório:
- Escutar
- Pensar
- Selecionar o que faz sentido
- Argumentar com calma (não explicar para fugir)
- Criar um plano real de mudança
Se não tem mudança, não foi feedback. Foi desabafo, foi monólogo ou foi sessão de autoengano.
A regra de ouro
Ninguém recebe bem feedback de quem não confia. E ninguém dá bom feedback para quem não está pronto para ouvir.
Além disso, uma verdade dolorosa para engolir:
Não existe verdade absoluta — existe percepção. E percepção não se corrige com justificativas. Se alguém percebeu você de um jeito que você não gosta, o caminho não é “explicar melhor”; é agir diferente.
Você não opera dentro da cabeça das pessoas. Você opera dentro de si — e isso altera o que elas percebem.
O maior inimigo da evolução: o papel de vítima
Não existe mudança sem protagonismo. Quem não se vê como responsável pelo problema jamais será responsável pela solução.
E assim a vida vira um tabuleiro no qual você não joga — é jogado. Peça, peão, figurante.
Abertura + combinado = feedback funcional
Sem abertura, o feedback vira ataque. Sem combinado, vira confusão. Sem responsabilidade, vira perda de tempo.
Eu mesma? Parei de dar feedback para:
- quem não quer,
- quem não sabe o que fazer com ele,
- ou quem só busca eco para sua própria narrativa.
Uma vez ouvi de uma pessoa simples e genial:
“Não vou explicar algo que você não vai entender e nem querer.”
É sabedoria pura. Não existe espaço do outro lado? Não existe feedback.
Quiet quitting: o fim silencioso das relações
Esse é o motor invisível do afastamento: o momento em que alguém percebe que não vale a hora explicar, e o outro não quer entender.
Quiet quitting não acontece só em empresas. Acontece na amizade, no casamento, na parceria, no projeto, na convivência.
É a morte silenciosa causada pela ausência do único elemento que mantém conversas difíceis vivas: disponibilidade real para ouvir e mudar.
Em resumo…
No fim das contas, feedback não é sobre apontar falhas nem sobre servir tapas emocionais travestidos de sinceridade. É sobre maturidade. Sobre duas pessoas dispostas a ocupar o mesmo território da verdade — sem drama, sem fuga, sem vaidade.
Quando existe abertura real, o feedback vira ferramenta. Quando existe combinado, ele vira ponte. Quando existe responsabilidade, ele vira combustível.
Mas quando falta qualquer um desses elementos, ele vira ruído, desgaste e… afastamento. E é exatamente aí que nasce o quiet quitting emocional: o momento em que alguém decide que já deu, que não vale explicar, que o tempo não será investido. A conversa termina — e junto com ela, a relação.
Por isso, o feedback brutal é, sim, um presente. Mas é um presente que só funciona quando quem recebe quer, pede, aguenta e usa. E quando quem dá tem clareza, intenção e zero desejo de vencer uma discussão — apenas de ajudar a construir uma versão melhor da pessoa do outro lado.
No jogo da vida adulta, feedback não é arma. É bússola. Só não adianta nada entregar para quem insiste em andar de olhos fechados.